Crônica: Dançando conforme a música

Crônica: Dançando conforme a música
Texto assinado por Miguel Tadeu Guimarães de Campos
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A crônica de hoje não tem jamais a intenção de menosprezar ou discriminar quem quer que seja.

Faço essa ressalva porque o assunto é delicado. É sobre o fato de ser comum a frequência dos infortunados a lugares públicos, onde é feito atendimento ao público.

Como fui delegado, constatei isso ao vivo e na promotoria isso continuou.

Porém, como o assunto é delicado, tenho medo de ser confundido, mas quem me conhece sabe que sempre tive a maior paciência com os infortunados, não menos merecedores de toda a minha atenção e tempo.

Me desculpem o elogio próprio, mas achei necessário para eliminar qualquer dúvida sobre o meu respeito a tal classe de pessoas.

O fato é que de tanto lidar com tais casos, aprendi a tática de dançar conforme a música ao prestar-lhes atendimento.

Certa vez quando estava no atendimento ao público chegou uma senhora muito bem vestida e com boa oratória, dizendo que tinha saído da sua cidade (comarca vizinha) para vir até a minha comarca porque alguém lhe falara que só eu poderia resolver o seu caso.

Disfarçadamente desprezei o elogio e passei a ouvir o seu relato, que realmente era incrível.

Dizia ela que seu marido era Major-mor do Brasil e que era credor do presidente do Brasil por um motivo inacreditável. E, então, estava li para que eu cobrasse o Presidente quanto à dívida com o seu marido.

Gentilmente, lhe pedi o documento da dívida e ela respondeu que estava tudo em Brasília.

Tentei argumentar que, então, o caso poderia ser resolvido com um bom advogado e uma boa ação diretamente no Supremo, mas, enfim, nada a fez demover de sua ideia.

Até aí tudo bem. Todos nós já recebemos casos assim, meio impossíveis.

A coisa complicou quando ela falou que só iria embora depois que eu resolvesse o seu problema.

E ela não foi embora, ficou ali me esperando resolver o seu caso.

Diante de tal situação, usei todos os argumentos que pude lembrar, mas não surtiram resultado algum.

Foi então que, tomado de uma súbita ideia mirabolante, pedi para a minha oficiala de promotoria, que a tudo assistia impávida colosso, para ligar imediatamente para o Fernando Henrique Cardoso, presidente na época e devedor ao Major mor.

Assustada, ela me olhou e logo percebeu que a minha ordem era séria. Tanto que “fez a ligação” e me colocou na linha.

Dei uma bronca fenomenal do senhor presidente e ordenei que fizesse o pagamento via bancária naquele mesmo dia.

Desliguei o telefone e, sem que eu dissesse nada, a mulher se levantou, me agradeceu e foi embora toda feliz.

Nunca uma simulação funcionou tanto.

  • Miguel Tadeu Guimarães de Campos, 56 anos, promotor de Justiça em Campinas-SP

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