Crônica: O aniversário do meu pai

Crônica: O aniversário do meu pai
Texto assinado por Miguel Tadeu Guimarães de Campos
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Meu pai trabalhava muito.

Dava aula de manhã e à noite. À tarde ia para a oficina trabalhar como ourives. Já falei sobre isso na crônica anterior.

Mas ainda quero lembrar de algo que me marcou: a sua conduta ao lidar com o ouro dos fregueses.

Quando sobrava algum pedaço de ouro, era um pedacinho, menor que a cabeça de um palito de fósforo, do tamanho da cabeça de um alfinete.

Ele apresentava o serviço ao freguês e devolvia aquele pedacinho, aquela cabeça de alfinete. Um exagero de honestidade, mas para mim foi uma escola. Sabe aquela história de quem rouba um alfinete, rouba um elefante.

Ah… eu sei disso porque na minha adolescência ia pra oficina ajudá-lo, polir as alianças. Então eu presenciei o que estou descrevendo, e várias vezes.

Mas o que quero contar é que depois de dar aula e trabalhar na oficina, no fim de tarde meu pai também não deixava de dar uma passada no campo de bocha, fonte de muitas histórias, que não presenciei, apenas ouvi e imagino.

E uma delas eu sei porque me foi contada no seu velório, como homenagem ao seu jeito carismático e alegre.

Dizia a lenda que lá no campo de bocha ele proclamava que iria fazer um churrasco em seu aniversário e que todos estavam convidados, mas acrescentava que queria agradar a cada convidado.

Aí, então, ele perguntava um por um o que cada um queria, tipo de carne, comida, bebida.

Cada um se empolgava e respondia o que gostava e, então, ele arrematava: – Então, irmão, você vai e leva o que você gosta, assim ninguém vai reclamar da festa.

Resultado: até hoje esse churrasco não saiu.

  • Miguel Tadeu Guimarães de Campos, 56 anos, promotor de Justiça em Campinas-SP

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