Crônica: O etecetera

Crônica: O etecetera
Texto assinado por João Alfredo Danieze
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No final de mandato de Prefeitos e Vereadores, depois de (geralmente!) nada fazerem nos três primeiros anos de mandato, tenta-se cumprir as promessas de campanha almejando a reeleição.

Isso tem acontecido, infelizmente, no Brasil afora.

Não foi diferente na nossa Vila Áurea, nos seus tempos áureos, quando ainda a velha política era dividida entre “maloqueiros” e “capivaras”. Os mais velhos saberão, com certeza, dessa rusga que ocorria sempre em ano de eleição.

Dizem os mais antigos que no folclore político da nossa cidade, às vésperas de uma determinada eleição municipal, um então Secretário de Agricultura do Estado passou a distribuir tratores e implementos agrícolas aos pequenos Municípios, para estimular o pequeno agricultor, hoje conhecido como “agricultura familiar”, que tem até recursos públicos para essa importante categoria de trabalhadores que produz e leva o alimento à nossa mesa.

Fala-se que Auriflama recebeu, à época, trator, arado, grade, roçadeira e outros implementos.

No dia da visita do Secretário, que faria a entrega do trator e equipamentos, fez-se uma solenidade, com a presença de várias autoridades e pessoas da comunidade.

O autor do pedido – dizem – foi um Vereador que, sabendo de antemão que haveria esse programa estadual de fomento ao pequeno agricultor, fez uma indicação ao então Secretário de Agricultura e, em razão disso, passou a ser o “pai da criança”, ou seja, aquele que levaria os louros da indicação e que, com isso, seria reconhecido pelo eleitor e – com isso – iria angariar votos na eleição daquele ano.

Deu-se a palavra ao Vereador (autor do pedido), para fazer o agradecimento em nome de toda a população auriflamense.

Ao iniciar seu discurso, tirou ele um papel do seu bolso, e passou a ler o que seu assessor havia preparado para ilustrar o acontecimento.

Começou ele, então, a fazer as exaltações típicas dessas enfadonhas reuniões e, num determinado momento, passou a agradecer o Secretário de Agricultura que estava presente:

– Agradeço o Secretário Estadual de Agricultura pela entrega do trator, eteque, eteque e eteque.

Silêncio total no auditório da Câmara, onde muitos dos atos dessa natureza eram realizados.

O Secretário não entendeu nada!

Um olhava para o outro querendo entender o que estava acontecendo. O que era esse tal de “eteque” que ninguém conhecia?

Após perceber o silêncio e o ar de quem falou bobagem, referido Vereador cochichou no ouvido do seu assessor: – o que é esse tal de eteque, que ninguém entendeu, nem eu?

Prontamente o assessor, também espantado com o ocorrido, respondeu discretamente ao Nobre Edil: – É a abreviação de etcétara. Era para falar do trator e também do restante do que a cidade recebeu, que era o arado, a roçadeira, a grade, etc.

E assim o “eteque” entrou para os anais da Casa de Leis…

  • João Alfredo Danieze, 57 anos, advogado, filho do Dedé e da Florinda, residente em Ribas do Rio Pardo (MS), desde 1992.

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