Crônica: O júri da facadinha

Crônica: O júri da facadinha
Texto assinado por Miguel Tadeu Guimarães de Campos
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Eu trabalhei em Pereira Barreto por mais de 17 anos, já falei isso aqui.

Fiz muitos júris. Uma experiência incrível. Um fala de um lado, o outro fala do outro. 7 pessoas ficam só escutando pra ver quem impressiona mais. E o réu ali, esperando a sua sina.

Pois é, tem júri que é um verdadeiro teatro, mas teatro da vida humana, com reflexos graves para os envolvidos.

Foi nesse cenário que um dia, no palco de um júri, eu encontrei pela frente o ilustríssimo amigo, irmão, e advogado Cláudio Lísias, a quem Auriflama e toda a região conhece. Aliás, foram dois júris. Um eu ganhei, se é que podemos dizer assim, e o outro, ele ganhou.

Registro aqui que trata-se de um excelente orador, mas muito bom mesmo, nasceu pra coisa. E que bom que ele também tem usado esse dom para pregar a palavra de Deus (e que ele seja curado para continuar esse seu ministério – vamos orar por ele).

Mas voltando ao júri, eu falei primeiro e usei todos os argumentos que pude para condenar o camarada. E no final pedi para os jurados esperarem a fala da defesa, que seria patrocinada pelo ilustre amigo já apresentado.

Dizia sempre para esperarem pela defesa porque no júri é assim, os jurados devem usar um ouvido para ouvir a acusação e o outro, para a defesa.

E o júri prosseguiu.

A certa altura o nobre causídico, no auge de sua argumentação, se empolgou e disse aos jurados, algo mais ou menos assim: o Promotor quer tacar na cadeia o fulano só por causa de uma facadinha e fez um gesto, juntando bem juntinho o polegar e o dedo indicador.

Aquilo…eu quis voar no pescoço dele. Porque ele queria induzir os jurados a olharem apenas a entrada do golpe na barriga da vítima.

Explico: o cara matou o outro com um golpe de canivete na barriga. Mas o golpe entrou na perpendicular (reto) e foi tão forte e tão fundo que causou perfuração em vários órgãos e abundante hemorragia, tanto que a vítima morreu. E o meu amigo Cláudio insistia que tinha sido apenas um “cortinho, uma facadinha”.

Aí eu aparteei: ÔÔÔ dr. Cláudio aí não né….

Resultado: a tese da “facadinha” não prevaleceu, mas até hoje quando ele me encontra ele junta o polegar e o indicador, só pra me provocar.

Um abraço amigo, que Deus te abençoe.

  • Miguel Tadeu Guimarães de Campos, 56 anos, promotor de Justiça em Campinas-SP

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