Crônica: Os famosos da Vila Áurea

Crônica: Os famosos da Vila Áurea
Texto assinado por Miguel Tadeu Guimarães de Campos
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Os famosos sempre são lembrados, mesmo depois de mortos.   

É lógico que a nossa Vila Áurea também tem os seus famosos. E muitos, aliás. Ainda hei de escrever sobre alguns deles.

Antes, preciso esclarecer que o meu conceito de famoso em Auriflama é um pouco diferente. Aqui, o cara pode ser famoso de tudo quanto é jeito. Basta a gente achar que ele é famoso, então ele é famoso. É uma coisa do coração.

Pretendo escrever algumas crônicas sobre os famosos vivos, mas hoje vou falar de um que já não está entre nós, mas a sua fama está.

É só mencionar o nome dele que cada um tem uma história pra contar.

Por isso, de antemão deixo claro que eu não sou a pessoa mais indicada para contar as suas histórias. Tem muitos outros na cidade que sabem os detalhes e falariam muito melhor sobre ele.

Mas vou tentar, pois ele merece ser lembrado pelo que fez em nossa cidade.

Tô falando do saudoso “seu Zé”.

Digo seu Zé, porque “Zé Marrom” era para os íntimos.

Quem tem mais idade e já jogou bola em Auriflama, com certeza passou pela sua mão. E, obviamente, presenciou fatos inesquecíveis, dignos de muitas crônicas, não é mesmo?

Algumas coisas é preciso lembrar.

Uma coisa era o seu jeito de falar. Tinha um jeito meio mole, meio manhoso de falar, mas nunca perdia a autoridade. Tinha moleque que tinha mais medo do seu Zé do que do próprio pai.

Os seus treinos, suas preleções, seu linguajar, até seu jeito de andar são dignos de nota.

No treino tinha dia que era só exercício, até escurecer. Não tinha jogo. A gente morria de raiva.  

Os atrasados, então, dava dó.

_ Quantas voltas, seu Zé?

_ Duas.

_ Quantas?

_ Quatro.

_ Quantas seu Zé?

_ Seis.

Era demais né. Também, além de atrasado, era surdo.

E quando no meio do treino ele apitava e dizia: pode voltar cada um no seu lugar. Até ele andar e chegar no lance, já tinha escurecido…

As suas preleções eram famosas.

Sentava no banco, juntava os dez dedos das mãos e ficava pensando o que ia falar. Inesquecível.

Reza a lenda que um dia ele pegou o Talianinho (outro famoso da cidade) pro sacrifício.

_ Taliano, a bola é feita do quê?

_ De couro seu Zé.

_ O couro vem da onde?

_ Da vaca.

_ E a vaca come o quê?

_ Grama.

_ Então Taliano… a bola tem que correr na grama.

Convenhamos… era um filósofo do futebol.

Esse ano ele completaria oitenta e oito anos.

Hoje presto-lhe essa singela homenagem.

Escrevi uma crônica, mas, na verdade, daria um livro.

E o título seria: “Quantas voltas, seu Zé?”

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  • Miguel Tadeu Guimarães de Campos, 56 anos, promotor de Justiça em Campinas-SP

19 comentários sobre “Crônica: Os famosos da Vila Áurea

  1. Realmente fantástico.
    O tempo passa….parece que foi ontem.
    Quando íamos de caminhão do Sr. Geraldo Secco para jogar na barraca.

  2. Parabéns meu irmão!!!
    Sempre me surpreendendo.
    Quem sabe um dia escreve uma crônica minha kkkk 🥰

  3. FALA MEU AMIGO – EXCELENTE E MUITO BOM MESMO. NÓS QUE JOGAMOS FOMOS COMANDADOS PELO SR ZÉ ERA EXATAMENTE ISSO.

  4. Olá Tadeu. Até eu que nunca joguei bola, embora tenha conhecido o “Zé Marrom”. Adorei a crônica. Parabéns. Continue escrevendo.

  5. Os elementos q foram no baile no Guarani podem deixar o vestiário, saiu o time todo…Ontem estava comentando essas falas com a Rejane..Parabéns..Abs

  6. Boa lembrança, caro Miguel Tadeu !!
    Somos pertencentes talvez, das últimas gerações vividas numa infância e adolescência tranquilas.
    A vida na Vila Áurea fluía de forma simples e pacata…
    Bons tempos …

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