Crônica: Um fusca e um violão

Crônica: Um fusca e um violão
Texto assinado por Marco Antônio Barbosa Neves
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Quem já possuiu um fusca, por certo tem muita estória para contar.

E tem cada uma!

         Passam os anos, mas essa verdadeira paixão nacional jamais deixou a mente dos brasileiros.

         Dos idos de 1953, quando começou a ser montado por aqui, até o ano de 1993, quando pela segunda vez deixou de ser fabricado no país, por certo que foi centro de muitas estórias e, a que eu conto a seguir é mais uma delas. Então vamos lá!

         Um grupo de jovens amigos auriflamenses resolveu, em um certo final de semana, de um tempo passado, se deslocar até a vizinha General Salgado, para uma noite de serenata.

Um destes amigos era o Vôti, apelido que carinhosamente recebeu dos demais, pois para tudo que julgava fora do normal desferia um “ô Vôti”.

O “Vôti” não cantava nada e falava pouco, mas bastava tomar umas que ficava valente e, a partir daí ao abrir a boca, poderia significar um sinal de “perigo”!

         Esses amigos, saíram naquela tarde/noite de Auriflama com o objetivo traçado: fazer serenatas para algumas felizardas residentes em General Salgado!

         Combinado horário de saída, cabelo alinhado, roupa impecável, fusca limpíssimo, som potente, um violão e, o principal… tanque cheio (vaquinha, é claro!) e lá vai a turma.

         Costume da época, para marcar a chegada e “dar o ar da graça” na cidade vizinha, era praxe circular de carro, na praça central, para avisar às garotas: tamo na área!

         Após a chegada na cidade, fusquinha impecável que ardia os olhos de tão limpinho.

         Outro costume na época, para se aguardar o melhor horário para a cantoria romântica devidamente ensaiada, os amigos resolveram estacionar o fusca em um barzinho movimentado, para tomar uma gelada e, principalmente coragem, afinal de contas cantar não era para qualquer um.

         Cerveja gelada e tudo seguia bem, até que, em determinado momento da noite, quase no derradeiro horário da seresta, eis que estaciona atrás do fusca dos amigos uma viatura da Polícia Militar. Na época ainda nem se sonhava com a adoção efetiva do tal “bafômetro”.

         Em seguida desceu um dos pê-emes que, visualizando a placa do fusca já foi logo questionando:

carrim de fora??

-de quem é esse fusquinha?

-é meu, respondeu um dos amigos.

         E emendou o miliciano…

         -é…o dono do fusquinha aí tem bom gosto…carrim limpim, alinhadim e, pelo jeito deve tá documentadim…quero vê!

         E prosseguiu o policial, andando de volta do fusca e, ao observar o violão dentro do carro, disparou:

         -e pelo jeito, o dono ainda gosta de tocá uma musiquinha?

         Foi quando nesse momento, o Vôti , “já com umas na cabeça”, resolve abrir a boca para não deixar o policial sem resposta:

         -é…mas só toca sertaneja “seo guarda”!

         Nesse momento, o pê-eme, que já havia traçado o rumo da situação, mais do que pê da vida sentenciou…

         -Ah é? Então vamo todo mundo prá delegacia cantá uma pro delegado!

-Todo mundo em cana!

         Naquela noite não teve serenata!

E o bocudo do Vôti? Sumiu!

De certo, com receio de ter que ouvir uma musiquinha, cantada ao pé do ouvido, pela turma!

É isso ai!

  • Marco Antônio Barbosa Neves, 56 anos,  casado, advogado, residente em Ribas do Rio Pardo, Mato Grosso do Sul, onde reside e trabalha desde 1994

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